terça-feira, 4 de novembro de 2008

Coisas sem explicação

Diante dos olhos do menino o mundo parecia tão cheio de crueldade... E não era só porque aquela senhora estava usando roupas rasgadas e carregando sacolas pesadas, cheias de nada. O que o intrigava era o porquê das pessoas não conseguirem sentar-se ao lado dela. Por que elas lotam o ônibus em pé, se há um lugar bem ali ao lado dela? Talvez porque sentar-se ali poderia significar se igualar a ela.
Teve pena. Pena de alguém que nem conhecia, que nem sequer viu o rosto – já que estava atrás do assento que acomodava a tal senhora e o espaço vazio.
A viagem continuava e, cada vez mais, via-se o ônibus cheio de pernas cansadas. Pessoas que chegavam até o assento, mas voltavam atrás na decisão de se sentar.
Mas, por que são tão cruéis? O que imaginam? Que ela é uma ladra? Uma louca?
Coitada. Essa senhora, ela apenas não teve oportunidade de tomar um banho. Suas sacolas estão exalando mau cheiro porque a comida que leva, certamente, veio do lixo.
Em meio a tantos pensamentos revoltos, foi surpreendido pela indagação: “Você tem horas?” “Ahm? Ah, sim, claro. São duas e quinze”. Após o único e breve contato, sentiu uma coisa boa. 'Coisa' era sentimento, que vinha, sem explicação. Sentiu-se, talvez, como tendo feito o que sempre ouviu dizerem, sem entender do que se tratava: uma boa ação; um favor àquela mulher que tanto repudiavam.
Ainda que com pena, não entendeu quando a senhora – essa mesma, que estava sozinha e desamparada – retirou uma garrafa de plástico de sua bolsa e, simplesmente, a jogou pela janela. “Senhora, não...” Mais uma garrafa. “Moça, a senhora não pode...” Agora um saco cheio de pães. Fez como se a sacudisse para que prestasse atenção. “Moça! A senhora está sujando tudo!” Saíam mais e mais coisas daquelas sacolas. E essas coisas não eram sentimentos; mas, eram sem explicação. Coisas que caíam pela janela. E junto a elas, despencava também o sentimento de pena e ia por terra a 'coisa' boa que o menino sentira.
Tocou a mulher repetidas vezes para ver se conseguia ser ouvido. Retraiu a mão assim que ela se voltou para trás. Medo.
Mas, finalmente, viu seu rosto. Sentiu nojo.
Na parada, uma outra senhora, entrou pela porta da frente. “Será que eu poderia me sentar aí?” “Não.” “Mas, é só a senhora tirar as sacolas.” “Não tá vendo que não tem lugar?!”.
Levantou-se, então, o menino, para dar lugar àquela nova senhora. Nova de frescor de talco. E lá estava ele: de pé. Em frente ao espaço vazio. Nem sequer pensando na hipótese de se sentar ali.
Coisas sem explicação.

Melina Souza

2 comentários:

Ana Carolina disse...

Parabéns Melina...mt legal o texto, sem explicação...rsrsrs

Bruno Sant' Anna disse...

Coisa, coisa, coisa...




... sem explicação.




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