domingo, 5 de maio de 2013

A árvore e a conclusão


Will olhava e via o mundo todo do alto daquela árvore.

Seu medo inconstante de dar o primeiro salto o levava a viagens instantâneas e intermináveis.
Medo de se machucar? Da dor que sentiria? Do choro faca que atravessaria a goela quando ele tentasse não chorar? Nada disso era o que passava em sua mente fervilhante. O medo era de não ter mais medo. De deixar de sentir a ânsia pelo pulo.

Se pulasse, talvez nunca mais sentisse todo o desejo do primeiro salto. E teria todo o tempo do mundo para decidir. Decidia, enfim, descer aos poucos, galho a galho, segurando-se no tronco que não o deixaria cair.
Todo dia, a árvore montanha era escalada, e Will decidia não pular.

Um dia, depois de descer em total segurança, a segurança do que já é conhecido e esperado, Will escuta o choro soluço que vem do corredor, entre o quarto e a sala de estar.

Era o choro morte, o choro de quem não tem mais como decidir se pula ou se deixa como está.

Will esperou o choro passar.

-Mãe...
- Seu avô, meu afilho, seu avô morreu...
- Como?
- O coração parou.
- Então, quer dizer que é assim que a gente morre? Um dia, assim, sem nenhum aviso?
- Morre, Will. Uns acreditam que morremos e renascemos, outros, que vamos só morar em um novo lugar. Há também os que acreditam que nada disso acontece... que morremos, e só.

Will correu para o quintal e se escondeu, em segurança, no seu único lugar.

De cima, do alto do mundo todo, Will pensou que todas aquelas pessoas poderiam estar erradas, que talvez a morte não existisse e que talvez ele ainda tivesse todo tempo do mundo para decidir entre pular e não pular.

Mas, a brisa tornou-se vento, e o vento veio acompanhado da chuva, que tentava incessantemente levar cada um dos galhos escada que Will bem conhecia... cada um.

Agarrado ao tronco mãe, Will via seus galhos indo embora, seus amigos apoio, que o levavam ao topo do mundo. Poucos restavam, e Will ainda poderia alcançar o mais alto, se quisesse, ou descer em segurança, aos poucos, como sempre fazia, sem riscos, sem se machucar.

A dúvida, nesse momento, já não era mais só um sentimento caloroso, que dava vida a seu imaginar.

Will olhou para o alto e tentou se agarrar ao insistente galho último, trincando de tanto balançar. Subiu com um novo medo: o de se estatelar. “E se os que acreditam que nada mais acontece estiverem certos?”

Mas o galho grunhia com a força do vento e já não mais podia esperar. Amanhã, seriam só Will e um tronco. Aqueles galhos, aqueles mesmos, não estariam mais ali para sustentá-lo.

Foi então que Will subiu contra a chuva e o vento, apoiou-se no galho coragem e resolveu pular.

Do alto do mundo, sentiu quais sentimentos sentiria quem decidisse se jogar. A chuva parecia gargalhar, e o vento assobiava em sua homenagem, em homenagem à coragem de perder o controle, de decidir não ter mais, por alguns instantes, de decidir nada.

Silêncio. De olhos fechados, Will se deixa jogar.

Do ato libertador, restou-lhe o gosto de terra na boca e uma leve dor no calcanhar. Mas, ao levantar-se, percebeu que ganhara arranhões história e, no final, sentiu subir um inexplicável suspiro, imenso.

Foi aí que correu até a sala de estar:

- Mãe, se a gente morre, então, é melhor pular.

M.S.