Will olhava e via o mundo todo do alto daquela árvore.
Seu medo inconstante de dar o primeiro salto o levava a
viagens instantâneas e intermináveis.
Medo de se machucar? Da dor que sentiria? Do choro faca que
atravessaria a goela quando ele tentasse não chorar? Nada disso era o que
passava em sua mente fervilhante. O medo era de não ter mais medo. De deixar de
sentir a ânsia pelo pulo.
Se pulasse, talvez nunca mais sentisse todo o desejo do
primeiro salto. E teria todo o tempo do mundo para decidir. Decidia, enfim,
descer aos poucos, galho a galho, segurando-se no tronco que não o deixaria
cair.
Todo dia, a árvore montanha era escalada, e Will decidia não
pular.
Um dia, depois de descer em total segurança, a segurança do
que já é conhecido e esperado, Will escuta o choro soluço que vem do corredor,
entre o quarto e a sala de estar.
Era o choro morte, o choro de quem não tem mais como decidir
se pula ou se deixa como está.
Will esperou o choro passar.
-Mãe...
- Seu avô, meu afilho, seu avô morreu...
- Como?
- O coração parou.
- Então, quer dizer que é assim que a gente morre? Um dia, assim, sem nenhum aviso?
- Seu avô, meu afilho, seu avô morreu...
- Como?
- O coração parou.
- Então, quer dizer que é assim que a gente morre? Um dia, assim, sem nenhum aviso?
- Morre, Will. Uns acreditam que morremos e renascemos,
outros, que vamos só morar em um novo lugar. Há também os que acreditam que
nada disso acontece... que morremos, e só.
Will correu para o quintal e se escondeu, em segurança, no
seu único lugar.
De cima, do alto do mundo todo, Will pensou que todas
aquelas pessoas poderiam estar erradas, que talvez a morte não existisse e que talvez
ele ainda tivesse todo tempo do mundo para decidir entre pular e não pular.
Mas, a brisa tornou-se vento, e o vento veio acompanhado da
chuva, que tentava incessantemente levar cada um dos galhos escada que
Will bem conhecia... cada um.
Agarrado ao tronco mãe, Will via seus galhos indo embora,
seus amigos apoio, que o levavam ao topo do mundo. Poucos restavam, e
Will ainda poderia alcançar o mais alto, se quisesse, ou descer em segurança, aos poucos,
como sempre fazia, sem riscos, sem se machucar.
A dúvida, nesse momento, já
não era mais só um sentimento caloroso, que dava vida a seu imaginar.
Will olhou para o alto e tentou se agarrar ao insistente
galho último, trincando de tanto balançar. Subiu com um novo medo: o de se
estatelar. “E se os que acreditam que nada mais acontece estiverem certos?”
Mas o galho grunhia com a força do vento e já não mais podia
esperar. Amanhã, seriam só Will e um tronco. Aqueles galhos, aqueles mesmos,
não estariam mais ali para sustentá-lo.
Foi então que Will subiu contra a chuva e o vento, apoiou-se no galho
coragem e resolveu pular.
Do alto do mundo, sentiu quais sentimentos sentiria quem
decidisse se jogar. A chuva parecia gargalhar, e o vento assobiava em sua
homenagem, em homenagem à coragem de perder o controle, de decidir não ter
mais, por alguns instantes, de decidir nada.
Silêncio. De olhos fechados, Will se deixa jogar.
Do ato libertador, restou-lhe o gosto de terra na boca e uma leve dor no calcanhar. Mas, ao levantar-se, percebeu que ganhara arranhões história e, no final, sentiu subir um inexplicável suspiro, imenso.
Do ato libertador, restou-lhe o gosto de terra na boca e uma leve dor no calcanhar. Mas, ao levantar-se, percebeu que ganhara arranhões história e, no final, sentiu subir um inexplicável suspiro, imenso.
Foi aí que correu até a sala de estar:
- Mãe, se a gente morre, então, é melhor pular.
M.S.