quarta-feira, 26 de novembro de 2008

DE FATO

Peço à Deus todos os dias que não me dê o dom de entender
que na vida tudo é de muito fácil juízo;
que o ser humano é simplório e constante.

Será possível não sabermos nada de nós,
se sabemos tanto dos outros?
Será tão cômoda essa forma encoberta,
mais do que ser liberto?
Será verdade não enxergarmos verdades se,
no final, admitimos sempre que estava tão claro?
Será tão inquietante o fato de que nossa vida se tornou um marasmo
e de que é preciso espreitar caminhos alheios?

Será mesmo que nada é perceptível aos nossos olhos,
a não ser que vejamos?
Francamente.
Se a sinceridade fosse uma qualidade concebível a todos,
ou entraríamos em guerra ou, simplesmente,
viveríamos a paz.

Melina Souza
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Que sejamos constantes em nossas verdades e que respeitemos o outro em suas verdades.

Um abraço apertado em todos vocês que me conhecem, mesmo que apenas por meus textos. Tenham a certeza de que eles refletem exatamente quem sou.

Agradeço por todo carinho e força de sempre!

Mel

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Queria escrever alguma coisa cheia de sentimento, mas falsas lágrimas seriam mais fáceis de cair sobre a folha.
Queria escrever algum poema cheio de palavras redondas.
Palavras apaixonadas são redondas.
AMOR é cheia de curvas, altos e baixos, uma montanha russa. A própria PAIXÃO começa por baixo e parece que explode nesse ão – redondo. É cíclico também, sempre leva ao mesmo horizonte. E por mais que saibamos aonde o barco leva, deixamos a maré seguir.
DOR. Dor é uma palavra redonda; obviamente porque também é apaixonada. Contrariando o alfabeto, pode vir antes ou depois do amor.
O “r” é uma letra decisiva. O “r” da RESPOSTA. AmoR e doR terminam esperando uma resposta. E a respostA termina no início de tudo, do alfabeto.
Falando em letras, onde já se viu colocarem um “s” em SAUDADE, o mesmo de SEPARAÇÃO e SOFRIMENTO? Saudade é coisa boa. É certo que existe a saudade sem volta, mas nunca se tem saudade do ruim, do perverso.
Alguém, certamente, já filosofou sobre a força da palavra; mas, será que algum sabido já observou sua alma? Cada letra é dona de uma alma. Ora, é certo dizer, então, que é ela quem dá vida à palavra.
No entanto, melhor não me atrever a indagar sobre a ciência da língua. Estarão logo dizendo que idealizei a lingüística da alma; Barthes diria que a língua é dona do poder. Eu diria que, mais do que isso, a língua é dona da INTENÇÃO, porque a palavra é dona da ATITUDE e o dicionário é cheio de SENTIMENTO.
Mas eu queria escrever um poema cheio de palavras redondas, apaixonadas...

Melina Souza

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Há pouco mais de três anos atrás...

"Quando eu te conheci achei que estive ficando louca. Meu olhar não parava em outro lugar, a não ser no seu olhar. Onde eu estava que não conseguia me centrar no que os outros diziam ou faziam? Onde estava meu corpo que não encontrava minha alma; porque ela estava ali ao lado da sua, sem querer sair, sem se mexer. Não sei o porquê, mas ainda acho que ela está parada, estática ao seu lado.
Pensei que fosse durar só um momento, mas a vida fez com que te achasse e me deu um motivo pra ficar por perto. Se me perguntarem o motivo, vou dizer que não sei. Só sei que esquenta e esfria, dá calor e arrepio, me segue por onde eu passo.
Quero ficar sempre onde você está, quero estar onde seja o seu lugar... quero te ouvir, mesmo que seja em silêncio.
Esse silêncio me dá carinho e a voz, calafrios... É insustentável poder te ver e não conseguir falar... nada.
Quero te ver e não sei como te encontrar. Vem aqui só... ou então fecha os olhos e deixa."
23.10.2005

São 3 de 198 anos!!!
Você é minha vida!

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Coisas sem explicação

Diante dos olhos do menino o mundo parecia tão cheio de crueldade... E não era só porque aquela senhora estava usando roupas rasgadas e carregando sacolas pesadas, cheias de nada. O que o intrigava era o porquê das pessoas não conseguirem sentar-se ao lado dela. Por que elas lotam o ônibus em pé, se há um lugar bem ali ao lado dela? Talvez porque sentar-se ali poderia significar se igualar a ela.
Teve pena. Pena de alguém que nem conhecia, que nem sequer viu o rosto – já que estava atrás do assento que acomodava a tal senhora e o espaço vazio.
A viagem continuava e, cada vez mais, via-se o ônibus cheio de pernas cansadas. Pessoas que chegavam até o assento, mas voltavam atrás na decisão de se sentar.
Mas, por que são tão cruéis? O que imaginam? Que ela é uma ladra? Uma louca?
Coitada. Essa senhora, ela apenas não teve oportunidade de tomar um banho. Suas sacolas estão exalando mau cheiro porque a comida que leva, certamente, veio do lixo.
Em meio a tantos pensamentos revoltos, foi surpreendido pela indagação: “Você tem horas?” “Ahm? Ah, sim, claro. São duas e quinze”. Após o único e breve contato, sentiu uma coisa boa. 'Coisa' era sentimento, que vinha, sem explicação. Sentiu-se, talvez, como tendo feito o que sempre ouviu dizerem, sem entender do que se tratava: uma boa ação; um favor àquela mulher que tanto repudiavam.
Ainda que com pena, não entendeu quando a senhora – essa mesma, que estava sozinha e desamparada – retirou uma garrafa de plástico de sua bolsa e, simplesmente, a jogou pela janela. “Senhora, não...” Mais uma garrafa. “Moça, a senhora não pode...” Agora um saco cheio de pães. Fez como se a sacudisse para que prestasse atenção. “Moça! A senhora está sujando tudo!” Saíam mais e mais coisas daquelas sacolas. E essas coisas não eram sentimentos; mas, eram sem explicação. Coisas que caíam pela janela. E junto a elas, despencava também o sentimento de pena e ia por terra a 'coisa' boa que o menino sentira.
Tocou a mulher repetidas vezes para ver se conseguia ser ouvido. Retraiu a mão assim que ela se voltou para trás. Medo.
Mas, finalmente, viu seu rosto. Sentiu nojo.
Na parada, uma outra senhora, entrou pela porta da frente. “Será que eu poderia me sentar aí?” “Não.” “Mas, é só a senhora tirar as sacolas.” “Não tá vendo que não tem lugar?!”.
Levantou-se, então, o menino, para dar lugar àquela nova senhora. Nova de frescor de talco. E lá estava ele: de pé. Em frente ao espaço vazio. Nem sequer pensando na hipótese de se sentar ali.
Coisas sem explicação.

Melina Souza