sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A metáfora da embarcação

Náufragos, em frente ao mar, há um homem e uma mulher. No horizonte, surge uma embarcação. Para ir até lá, até o longínquo horizonte, um deles precisará se sacrificar; talvez nem chegue a ser visto pelos tripulantes ou talvez consiga, mas não suporte o frio rasgante do mar. Sendo assim, ao menos um deles seria salvo.

O homem se prontifica, prepara-se para ingressar no seu curto e anônimo momento heroico. A mulher tenta dar-lhe coragem com um olhar fixo, confiante, mas seus olhos embaçados não a deixam ser mais nada, além de fragilidade.

Ao mar, lá está ele, buscando a pequenina embarcação. Seu corpo, cansado, demonstra a fraqueza de dias de fome. Acena ao barco, mas ele ainda parece estar no infinito. Conclui, então, que suas pernas precisam de descanso, um descanso longo e tranquilo, o descanso da morte.

Mas, como que culpada pela sua fragilidade, é ela quem o arrasta, com a força de sua alma, até que, ciclicamente, também se canse e ele possa levá-la. Um nos braços do outro; um nadando desesperadamente pelo outro.

Não há mais destino, só um estranho orgulho e um apaziguante conforto. Porque, agora, no meio da escuridão do mar, não existem mais os estereótipos de herói e de mocinha a ser salva. Há apenas alguém que se mantém vivo para que o outro também possa estar.


Nós não queremos finais felizes.
Queremos histórias que valham a pena.
M. S.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A flor do cerrado


Veja a flor que brota no cerrado.

Houve um tempo em que era apenas uma semente voando junto ao bico de um pássaro distraído. E que, depois da forçada aterrissagem, esperou ansiosamente por uma combinação geométrica entre chuva, sol e vento para que, finalmente, pudesse germinar.

E daquela corajosa raiz ergueu-se o caule, também heroico, em busca do sol que o manteria vivo. Não sabia, no entanto, que, diante da seca, passaria pela sede. Nenhuma gota d’água. Era o que ele tinha. Mas, sobreviveu. Aprendeu, instintivamente, que teria que poupar água durante os meses que antecediam os da seca. Cresceu. Cresceu, sofrendo com o calor dos dias e o frio rígido das noites.

Ainda assim, como que com vontade de abraçar o mundo, fez crescerem seus galhos e folhas, mesmo que cada uma delas fosse sinal de que teria que poupar mais água. Era o verde sobre a cor de terra seca.

E lá estava a pequena árvore, gigante do cerrado, aguardando ansiosamente por apenas uma recompensa, em meio a todo esse despercebido esforço.

Eis, então, que nasce o seu presente: a intocável flor. De vivaz beleza e rigidez. Delicada, mas forte, não só por ser essa a sua natureza, mas porque inquilina daquela que um dia já foi semente e pôde protegê-la dos perigos de seu habitat.

Aos olhos de quem a vê pronta, é decididamente um milagre.
Mas, não há maior milagre do que o verdadeiro esforço.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Ter esperança

Certa vez, escrevi: “o inesperado é, simplesmente, tudo aquilo que você espera, mas que acha demais pra acontecer justamente... com você.” E esperar o inesperado é algo indubitavelmente impossível de se acontecer.

Enquanto se espera por ele, não há o inesperado. A idealização de tudo aquilo que se quer, é praticamente uma metáfora da esperança. Mas essa, não se trata do impossível; ter esperança é crer no que pode ser.

Esperar é forçar a vida a rumar para onde os trilhos não levam. Ter esperança é deixar que os vagões resvalem até onde for o seu destino e crer que chegarão lá sãos e conscientes de que a viagem pode ter sido tortuosa, mas cumpriu o seu ensejo.

Entre esperar ou ter esperança, por mais sinônimas que possam parecer, escolha sempre a esperança, porque ela é a única que leva aonde deve ser.

M. S.

sábado, 26 de março de 2011

Onde foi que deixei minha alegria?

Onde foi que eu deixei minha alegria
Onde foi que guardei meu sorriso
Onde foi parar?

Eu vejo o luto da vida
Que morre aos poucos longe de mim
Esse eu que corre do mundo
Que foge da dor e deveras também do amor

Onde foi que eu deixei a força
Onde foi que eu guardei minha luz
Onde foi parar?

Eu vejo que me minha alegria
Trás com ela a dor.
É como uma tarde de intenso calor
Que com ela trás a chuva

E eu já sabia que ela viria
Porque os relâmpagos anunciam
E, mesmo assim, deixo que a luz do sol
Me invada

Mas, esses raios da estrela
Perfuram meus olhos
E vem por fim a escuridão.

De que adianta o sol, se não se tem olhos para vê-lo?

Minha vida é como um dia de forte calor
Sinto o sol e aproveito a tarde
E só sei que a chuva vem
Pra avisar que a alegria passa.

Mas não posso deixar de viver essa felicidade
Mesmo que por um momento embriagado
e só.


M. S.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Ninguém


Se um dia alguém te magoar, escreva uma carta pra ninguém.


Fale, grite, discuta com ninguém.

Diga todas as verdades sórdidas pra ninguém.

Chore. Chore, mas pra ninguém.


Queime uma carta, uma foto, mas com fósforos de ninguém.

Bata, xingue, teime com ninguém.

Depois de tudo feito, olhe ao seu redor e veja:


Não há ninguém.


Ninguém que deva ouvir sua voz, seu choro.

Ninguém que mereça sua luz, sua força.

Ninguém que valha a sua tristeza.


Ninguém.


M. S.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

E se hoje eu fosse mar

E se hoje eu fosse o mar

Estaria

Em aparente calmaria

[...]

E como eu poderia saber

Que, sendo mar,

Eu precisaria

Esperar pelo varrer

Da maré

Que um dia levaria

Cada pedaço de meu coração?

[...]

E se lá bem no fundo

Eu parar de respirar?

No silêncio profundo

Eu serei o mar.

Capaz de suportar

A calma e a tormenta

Uma seguida da outra

Sem cessar.

Um dia

Eu ainda serei mar.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Entre o ser e o existir

Sempre quis que minhas intenções fossem histéricas
Que meu pensamento fosse surdo
[e gritasse com medo de não ser ouvido.

Queria que minha vontade fosse sem vergonha, sacana
Que o meu desejo pulasse até ser percebido.

Sempre quis que minha reação fosse exata
Que meus olhos fossem armas de precisão milimétrica.

Mas o real não obedece ao meu querer.

Queria que o transparecer não fosse tão o oposto do Ser
E que o Ser não fosse tão enorme diante do Existir.

O meu mal é fazer de pequenos momentos,
grandes acontecimentos.

M.S.