terça-feira, 18 de junho de 2013

Para seguir em frente

O Gigante acordou. Essa é uma das frases de efeito utilizada nas ruas, nas fotos, nos gritos de protesto. Existe, de fato, uma mobilização nacional, e junto a ela surge a pergunta: qual é o objetivo? Os organizadores do MPL estão roucos por repetirem, incessantemente, a mesma resposta: “hoje é pela revogação do aumento da tarifa”. Nas mídias sociais, os facebookers repetem “não é por vinte centavos”. Nas ruas, os manifestantes gritam frases de protesto contra o aumento da tarifa, mas também contra a Copa e a favor da conversão desse investimento em saúde e educação, contra PEC 37, Marco Feliciano e inúmeras outras pautas. E assim, difunde-se a ideia de que a manifestação não tem um objetivo, não tem líderes, não tem controle. Espalham-se também os posts, artigos e comentários contra os atos e, principalmente, contra a massa que se envolve neles – “Quem são vocês?”; “Não sabem o que estão fazendo nas ruas!”.

No entanto, está claro o que houve por aqui. Essa juventude cresceu em uma bolha em que a informação foi sendo injetada, canalizada. Um dia, amigos, essa bolha ia estourar. Eis o resultado. Muito mais positivo do que qualquer especialista poderia esperar. E pacífico também, porque se pensarmos na parcela da população que se coloca com violência, ela não somará 5% dos que estão nas ruas. Os brasileiros estavam engasgados e vomitaram em conjuntos de 50, 100, 200 mil.

Agora, entendamos uma coisa: os que dizem que há “rebeldes sem causa” não estão enganados, porque há. Há os que não sabem por que se mobilizam. E a pergunta, aquela que realmente importa, é: como fazer para que se tornem conscientes? O papel de cada um de nós agora é o de responder a essa pergunta, é o de levar informação clara junto às belas imagens dos atos: não são eventos, são manifestos. A atenção dessas pessoas já foi chamada, nós conseguimos, elas estão olhando para as ruas e caminhando.  Mas essas mesmas pessoas precisam tornar-se conscientes de que, quando a “poeira baixar”, terão de respirar fundo e continuar, o que significa mudar de atitude cotidianamente, significa atuar politicamente em questões importantes não para elas, mas para a sociedade, significa não votar por influência midiática direta, mas por terem buscado informação legítima, e, finalmente, significa posicionar-se.

Esse será o momento-chave, o passo mais difícil, essa será a hora de mostrar o que mudou no país.


Hoje, o manifesto é pela revogação do aumento da tarifa. Diariamente, o movimento precisa ser pela conscientização nacional.

domingo, 5 de maio de 2013

A árvore e a conclusão


Will olhava e via o mundo todo do alto daquela árvore.

Seu medo inconstante de dar o primeiro salto o levava a viagens instantâneas e intermináveis.
Medo de se machucar? Da dor que sentiria? Do choro faca que atravessaria a goela quando ele tentasse não chorar? Nada disso era o que passava em sua mente fervilhante. O medo era de não ter mais medo. De deixar de sentir a ânsia pelo pulo.

Se pulasse, talvez nunca mais sentisse todo o desejo do primeiro salto. E teria todo o tempo do mundo para decidir. Decidia, enfim, descer aos poucos, galho a galho, segurando-se no tronco que não o deixaria cair.
Todo dia, a árvore montanha era escalada, e Will decidia não pular.

Um dia, depois de descer em total segurança, a segurança do que já é conhecido e esperado, Will escuta o choro soluço que vem do corredor, entre o quarto e a sala de estar.

Era o choro morte, o choro de quem não tem mais como decidir se pula ou se deixa como está.

Will esperou o choro passar.

-Mãe...
- Seu avô, meu afilho, seu avô morreu...
- Como?
- O coração parou.
- Então, quer dizer que é assim que a gente morre? Um dia, assim, sem nenhum aviso?
- Morre, Will. Uns acreditam que morremos e renascemos, outros, que vamos só morar em um novo lugar. Há também os que acreditam que nada disso acontece... que morremos, e só.

Will correu para o quintal e se escondeu, em segurança, no seu único lugar.

De cima, do alto do mundo todo, Will pensou que todas aquelas pessoas poderiam estar erradas, que talvez a morte não existisse e que talvez ele ainda tivesse todo tempo do mundo para decidir entre pular e não pular.

Mas, a brisa tornou-se vento, e o vento veio acompanhado da chuva, que tentava incessantemente levar cada um dos galhos escada que Will bem conhecia... cada um.

Agarrado ao tronco mãe, Will via seus galhos indo embora, seus amigos apoio, que o levavam ao topo do mundo. Poucos restavam, e Will ainda poderia alcançar o mais alto, se quisesse, ou descer em segurança, aos poucos, como sempre fazia, sem riscos, sem se machucar.

A dúvida, nesse momento, já não era mais só um sentimento caloroso, que dava vida a seu imaginar.

Will olhou para o alto e tentou se agarrar ao insistente galho último, trincando de tanto balançar. Subiu com um novo medo: o de se estatelar. “E se os que acreditam que nada mais acontece estiverem certos?”

Mas o galho grunhia com a força do vento e já não mais podia esperar. Amanhã, seriam só Will e um tronco. Aqueles galhos, aqueles mesmos, não estariam mais ali para sustentá-lo.

Foi então que Will subiu contra a chuva e o vento, apoiou-se no galho coragem e resolveu pular.

Do alto do mundo, sentiu quais sentimentos sentiria quem decidisse se jogar. A chuva parecia gargalhar, e o vento assobiava em sua homenagem, em homenagem à coragem de perder o controle, de decidir não ter mais, por alguns instantes, de decidir nada.

Silêncio. De olhos fechados, Will se deixa jogar.

Do ato libertador, restou-lhe o gosto de terra na boca e uma leve dor no calcanhar. Mas, ao levantar-se, percebeu que ganhara arranhões história e, no final, sentiu subir um inexplicável suspiro, imenso.

Foi aí que correu até a sala de estar:

- Mãe, se a gente morre, então, é melhor pular.

M.S.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A metáfora da embarcação

Náufragos, em frente ao mar, há um homem e uma mulher. No horizonte, surge uma embarcação. Para ir até lá, até o longínquo horizonte, um deles precisará se sacrificar; talvez nem chegue a ser visto pelos tripulantes ou talvez consiga, mas não suporte o frio rasgante do mar. Sendo assim, ao menos um deles seria salvo.

O homem se prontifica, prepara-se para ingressar no seu curto e anônimo momento heroico. A mulher tenta dar-lhe coragem com um olhar fixo, confiante, mas seus olhos embaçados não a deixam ser mais nada, além de fragilidade.

Ao mar, lá está ele, buscando a pequenina embarcação. Seu corpo, cansado, demonstra a fraqueza de dias de fome. Acena ao barco, mas ele ainda parece estar no infinito. Conclui, então, que suas pernas precisam de descanso, um descanso longo e tranquilo, o descanso da morte.

Mas, como que culpada pela sua fragilidade, é ela quem o arrasta, com a força de sua alma, até que, ciclicamente, também se canse e ele possa levá-la. Um nos braços do outro; um nadando desesperadamente pelo outro.

Não há mais destino, só um estranho orgulho e um apaziguante conforto. Porque, agora, no meio da escuridão do mar, não existem mais os estereótipos de herói e de mocinha a ser salva. Há apenas alguém que se mantém vivo para que o outro também possa estar.


Nós não queremos finais felizes.
Queremos histórias que valham a pena.
M. S.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A flor do cerrado


Veja a flor que brota no cerrado.

Houve um tempo em que era apenas uma semente voando junto ao bico de um pássaro distraído. E que, depois da forçada aterrissagem, esperou ansiosamente por uma combinação geométrica entre chuva, sol e vento para que, finalmente, pudesse germinar.

E daquela corajosa raiz ergueu-se o caule, também heroico, em busca do sol que o manteria vivo. Não sabia, no entanto, que, diante da seca, passaria pela sede. Nenhuma gota d’água. Era o que ele tinha. Mas, sobreviveu. Aprendeu, instintivamente, que teria que poupar água durante os meses que antecediam os da seca. Cresceu. Cresceu, sofrendo com o calor dos dias e o frio rígido das noites.

Ainda assim, como que com vontade de abraçar o mundo, fez crescerem seus galhos e folhas, mesmo que cada uma delas fosse sinal de que teria que poupar mais água. Era o verde sobre a cor de terra seca.

E lá estava a pequena árvore, gigante do cerrado, aguardando ansiosamente por apenas uma recompensa, em meio a todo esse despercebido esforço.

Eis, então, que nasce o seu presente: a intocável flor. De vivaz beleza e rigidez. Delicada, mas forte, não só por ser essa a sua natureza, mas porque inquilina daquela que um dia já foi semente e pôde protegê-la dos perigos de seu habitat.

Aos olhos de quem a vê pronta, é decididamente um milagre.
Mas, não há maior milagre do que o verdadeiro esforço.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Ter esperança

Certa vez, escrevi: “o inesperado é, simplesmente, tudo aquilo que você espera, mas que acha demais pra acontecer justamente... com você.” E esperar o inesperado é algo indubitavelmente impossível de se acontecer.

Enquanto se espera por ele, não há o inesperado. A idealização de tudo aquilo que se quer, é praticamente uma metáfora da esperança. Mas essa, não se trata do impossível; ter esperança é crer no que pode ser.

Esperar é forçar a vida a rumar para onde os trilhos não levam. Ter esperança é deixar que os vagões resvalem até onde for o seu destino e crer que chegarão lá sãos e conscientes de que a viagem pode ter sido tortuosa, mas cumpriu o seu ensejo.

Entre esperar ou ter esperança, por mais sinônimas que possam parecer, escolha sempre a esperança, porque ela é a única que leva aonde deve ser.

M. S.

sábado, 26 de março de 2011

Onde foi que deixei minha alegria?

Onde foi que eu deixei minha alegria
Onde foi que guardei meu sorriso
Onde foi parar?

Eu vejo o luto da vida
Que morre aos poucos longe de mim
Esse eu que corre do mundo
Que foge da dor e deveras também do amor

Onde foi que eu deixei a força
Onde foi que eu guardei minha luz
Onde foi parar?

Eu vejo que me minha alegria
Trás com ela a dor.
É como uma tarde de intenso calor
Que com ela trás a chuva

E eu já sabia que ela viria
Porque os relâmpagos anunciam
E, mesmo assim, deixo que a luz do sol
Me invada

Mas, esses raios da estrela
Perfuram meus olhos
E vem por fim a escuridão.

De que adianta o sol, se não se tem olhos para vê-lo?

Minha vida é como um dia de forte calor
Sinto o sol e aproveito a tarde
E só sei que a chuva vem
Pra avisar que a alegria passa.

Mas não posso deixar de viver essa felicidade
Mesmo que por um momento embriagado
e só.


M. S.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Ninguém


Se um dia alguém te magoar, escreva uma carta pra ninguém.


Fale, grite, discuta com ninguém.

Diga todas as verdades sórdidas pra ninguém.

Chore. Chore, mas pra ninguém.


Queime uma carta, uma foto, mas com fósforos de ninguém.

Bata, xingue, teime com ninguém.

Depois de tudo feito, olhe ao seu redor e veja:


Não há ninguém.


Ninguém que deva ouvir sua voz, seu choro.

Ninguém que mereça sua luz, sua força.

Ninguém que valha a sua tristeza.


Ninguém.


M. S.