sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A metáfora da embarcação

Náufragos, em frente ao mar, há um homem e uma mulher. No horizonte, surge uma embarcação. Para ir até lá, até o longínquo horizonte, um deles precisará se sacrificar; talvez nem chegue a ser visto pelos tripulantes ou talvez consiga, mas não suporte o frio rasgante do mar. Sendo assim, ao menos um deles seria salvo.

O homem se prontifica, prepara-se para ingressar no seu curto e anônimo momento heroico. A mulher tenta dar-lhe coragem com um olhar fixo, confiante, mas seus olhos embaçados não a deixam ser mais nada, além de fragilidade.

Ao mar, lá está ele, buscando a pequenina embarcação. Seu corpo, cansado, demonstra a fraqueza de dias de fome. Acena ao barco, mas ele ainda parece estar no infinito. Conclui, então, que suas pernas precisam de descanso, um descanso longo e tranquilo, o descanso da morte.

Mas, como que culpada pela sua fragilidade, é ela quem o arrasta, com a força de sua alma, até que, ciclicamente, também se canse e ele possa levá-la. Um nos braços do outro; um nadando desesperadamente pelo outro.

Não há mais destino, só um estranho orgulho e um apaziguante conforto. Porque, agora, no meio da escuridão do mar, não existem mais os estereótipos de herói e de mocinha a ser salva. Há apenas alguém que se mantém vivo para que o outro também possa estar.


Nós não queremos finais felizes.
Queremos histórias que valham a pena.
M. S.