O homem se prontifica, prepara-se para ingressar no seu curto e anônimo momento heroico. A mulher tenta dar-lhe coragem com um olhar fixo, confiante, mas seus olhos embaçados não a deixam ser mais nada, além de fragilidade.
Ao mar, lá está ele, buscando a pequenina embarcação. Seu corpo, cansado, demonstra a fraqueza de dias de fome. Acena ao barco, mas ele ainda parece estar no infinito. Conclui, então, que suas pernas precisam de descanso, um descanso longo e tranquilo, o descanso da morte.
Mas, como que culpada pela sua fragilidade, é ela quem o arrasta, com a força de sua alma, até que, ciclicamente, também se canse e ele possa levá-la. Um nos braços do outro; um nadando desesperadamente pelo outro.
Não há mais destino, só um estranho orgulho e um apaziguante conforto. Porque, agora, no meio da escuridão do mar, não existem mais os estereótipos de herói e de mocinha a ser salva. Há apenas alguém que se mantém vivo para que o outro também possa estar.
Nós não queremos finais felizes.
Queremos histórias que valham a pena.
M. S.