
Houve um tempo em que era apenas uma semente voando junto ao bico de um pássaro distraído. E que, depois da forçada aterrissagem, esperou ansiosamente por uma combinação geométrica entre chuva, sol e vento para que, finalmente, pudesse germinar.
E daquela corajosa raiz ergueu-se o caule, também heroico, em busca do sol que o manteria vivo. Não sabia, no entanto, que, diante da seca, passaria pela sede. Nenhuma gota d’água. Era o que ele tinha. Mas, sobreviveu. Aprendeu, instintivamente, que teria que poupar água durante os meses que antecediam os da seca. Cresceu. Cresceu, sofrendo com o calor dos dias e o frio rígido das noites.
Ainda assim, como que com vontade de abraçar o mundo, fez crescerem seus galhos e folhas, mesmo que cada uma delas fosse sinal de que teria que poupar mais água. Era o verde sobre a cor de terra seca.
E lá estava a pequena árvore, gigante do cerrado, aguardando ansiosamente por apenas uma recompensa, em meio a todo esse despercebido esforço.
Eis, então, que nasce o seu presente: a intocável flor. De vivaz beleza e rigidez. Delicada, mas forte, não só por ser essa a sua natureza, mas porque inquilina daquela que um dia já foi semente e pôde protegê-la dos perigos de seu habitat.
Aos olhos de quem a vê pronta, é decididamente um milagre.
Mas, não há maior milagre do que o verdadeiro esforço.